Perto do final de Thrones of the Invisible (Tronos do Invisível), tento descrever o mundo que realmente desejo, e descubro que ele não pode ser construído apenas a partir de ideais. Escrevo aí que o progresso interior — o crescimento em sabedoria, paciência, coragem, na capacidade de amar — só pode desdobrar-se sobre um certo tipo de terreno. A esse terreno chamo equilíbrio exterior, e nomeio os seus elementos sem rodeios: comida suficiente, abrigo, cuidado, descanso, educação, dignidade e participação. Sem eles, sustento, falar de florescimento torna-se «uma piada cruel contada a quem está sobrecarregado». É por isso que o livro regressa, uma e outra vez, a uma única ideia inacabada de 1944: a Segunda Declaração de Direitos de Franklin Roosevelt, e a sua insistência discreta em que a liberdade deve incluir o direito a uma habitação digna. Uma pessoa que vive no medo diário do despejo, escrevi, não é verdadeiramente livre pelo simples facto de um documento jurídico usar a palavra liberdade.
Tenho pensado nesse projeto enrolado ao longo deste mês, e em nenhum lugar ele me parece tão estranhamente próximo como em Portugal. Porque aqui o documento jurídico não usa apenas a palavra liberdade: o artigo 65.º da Constituição diz, desde 1976, que todos têm direito «a uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto», e a Lei de Bases da Habitação de 2019 repetiu-o em português corrente. O direito está escrito. E, no entanto, leia-se a cobertura das últimas semanas e ele não aparece em lado nenhum. O que aparece é uma máquina de botões.